
O melhor filme de Angelina Jolie depois de Uma Vida em Sete Dias. Muito chocante, traumatizante, emocionante. Faz agente ver que até uma musa pode virar uma leoa para proteger sua cria. Nossa Musa finalmente mostrou na vida real o que ela é na vida real. Uma Mãe.
E tomara que HollyWood largue a imagem dela de mulher vugar eternamente, o que ela largou de ser a muito tempo e mostre sim a imagem Mulher que ela é.
Leiam aqui a historia real que inspirou o filme.
Um dos mais conhecidos crimes da Los Angeles da "Jazz Age" começou de forma discreta com um rapaz desaparecido. Mas o caso de Walter Collins iria acabar por se tornar no drama de O. J. Simpson do seu tempo, um crime horroroso que deu origem a um frenesim mediático e que fascinou a Califórnia. O que começou como a história verídica de uma criança desaparecida viria a tomar um significado maior numa cidade em crescimento. Se os pormenores desapareceram com o tempo, aquilo que nele ecoou sobre corrupção e abuso de autoridade, sobre o poder das mulheres e o preço da justiça continua a ecoar na memória colectiva de Los Angeles.
No meio de tudo aquilo esteve Christine Collins, a mãe de Walter, uma improvável heroína. A 10 de Março de 1928, Collins deu ao filho Walter, 9 anos, dinheiro para ele ir ao cinema. Collins, que vivia num bairro de classe média a norte da baixa de LA, era caso raro na época: era uma mãe solteira cujo ex-marido estava na cadeia por ajudar a dirigir um bar ilegal; trabalhava na companhia dos telefones e orgulhava-se de manter uma postura profissional e nada emotiva quando tinha de lidar com homens em posições de poder.
Walter desapareceu nesse dia. Em poucas semanas, a polícia (com os meios de comunicação a observarem) realizava uma enorme operação de busca. Começaram a chegar inúmeras pistas, com pessoas a afirmarem que tinham visto o rapaz ao pé de uma estação de serviço, sentado no banco traseiro de um carro, embrulhado em papel de jornal. O pai do rapaz, Walter J.S. Collins, apresentou a teoria de que alguns dos seus ex-companheiros de cadeia tinham raptado o filho, talvez por vingança.
Em Agosto, o Departamento de Polícia de Los Angeles entregou um rapaz a Christine Collins: o seu suposto filho tinha sido encontrado no Illinois. Era, aparentemente, uma vitória para a polícia de LA, cujo chefe, James Davis, era famoso por ter criado um "esquadrão armado", de 50 homens, para perseguir criminosos com a ordem de capturar bandidos "mortos, não vivos."
Depois de ver a criança que lhe apresentaram, Collins disse: "Acho que não é o meu filho." Pressionada pela polícia, levou o rapaz para casa. Três semanas mais tarde, devolveu a criança, valendo-se dos registos dentários do seu verdadeiro filho e de testemunhos de pessoas que conheciam Walter. Sem se dar conta, Collins iniciou o que viria a tornar-se uma tempestade mediática que terminaria com uma batalha legal que durou uma década, e uma nova lei estadual, mas nunca se descobriu o que aconteceu a Walter.
Uma mulher entre homens
Esta história está a ser contada no filme de Clint Eastwood "Changeling". Tem como protagonistas Angelina Jolie, no papel de Collins, e John Malkovich como Reverendo Gustav Briegleb, pregador com programa de rádio que abraçou a causa de Collins. A história foi desenterrada dos arquivos do tribunal e da cidade pelo jornalista, agora argumentista, J. Michael Straczynski, que passou um ano a pesquisar arquivos e jornais. "Fiquei impressionado pelo vigor e coragem que ela [Christine Collins] revelou, ela lutou tão arduamente pelo filho." Muitos dos problemas de Collins, diz, tiveram origem no facto de ela ser uma mulher que não se conformava com o que os homens - o Departamento da Polícia de Los Angeles - esperavam que ela fosse.
Collins foi tratada de forma brutal pela polícia. Quando tentou devolver a criança, J. J. Jones, o capitão com a pasta do caso, ridicularizou-a. Segundo o testemunho do tribunal, disse-lhe: "O que é que você está a tentar conseguir, fazer-nos a todos de parvos? Ou está a tentar evitar cumprir o seu dever de mãe e fazer com que seja o estado a encarregar-se do seu filho? Você é a mulher mais cruel que alguma vez conheci."
Jones atirou Collins para ala de psiquiatria do Hospital Geral do Condado de Los Angeles, onde ela permaneceu cerca de uma semana. "Na altura, era fácil para os polícias atirarem alguém de quem não gostavam para o manicómio por causarem problemas", conta Straczynski. "Faziam-no mais com mulheres do que com homens. Se Christine fosse um homem, isto nunca teria acontecido." Entretanto, depois de questionada pela polícia, a criança que tinha sido entregue a Collins admitiu que, de facto, se chamava Arthur Hutchins: era um rapaz de 12 anos que tinha fugido do Illinois e que se tinha feito passar por Walter porque queria ir até Los Angeles e ver a estrela de cinema Tom Mix. Por esta altura, a polícia também tinha descoberto um "serial killer", Gordon Stewart Northcott, que operava a partir de um rancho em Wineville, comunidade rural a este de LA. Nortcott atacava rapazes, violava-os e matava-os - segundo estimativas talvez tenha feito 20 vítimas. O sobrinho de Nortcott, Sanford Clark, que tinha sido obrigado a ser seu cúmplice, alertou a polícia. Segundo Clark, uma das vítimas tinha sido Walter Collins.
Christine Collins processou a cidade, e Davis e Jones por prisão sob acusação falsa, e mil cidadãos furiosos assistiram ao inquérito sobre o caso perante o comité de saúde e previdência da Câmara Municipal. O fascínio pelo caso foi alimentado pelo pregador da rádio Briegleb, que gostava de pregar não apenas contra a corrupção na policía mas também contra outros assuntos escandalosos da altura, como o julgamento da estrela de cinema Fatty Arbuckle por violação, ou ainda contra o sexo nos filmes. "Toda a gente à volta dela tinha os seus objectivos. A polícia tinha um objectivo, Briegleb tinha um objectivo", diz Straczynski. "Em todo o caso a única voz clara era a dela: 'Onde está o meu filho?'"
Eastwood descobriu que o verdadeiro rancho Nortcott ainda existe em Mira Loma, Condado de Riverside. Em 1930, os cidadãos de Wineville mudaram o nome da sua comunidade para Mira Loma para se verem livres da infâmia causada pelos assassínios de Northcott."Foi assustador", diz o realizador. "Parece igual ao que era, se bem que a casa tenha sido ligeiramente modificada. Demos a volta por trás da casa e lá estavam umas capoeiras." Foi nas capoeiras que Nortcott assassinou as suas vítimas. "Não sei se eram as mesmas, mas eram capoeiras rústicas e velhas." Eastwood decidiu não bater à porta. Não sabia como é que os ocupantes da casa se sentiriam ao aparecer-lhes Clint Eastwood na soleira da porta e anunciar-lhes que viviam na casa de um assassino de crianças. "Não me quis intrometer na vida destas pessoas."
A Eastwood a história de Collins lembrou o tipo de histórias de grandes mulheres que viu no ecrã quando crescia nos anos 40. "Havia muitas mulheres que protagonizavam histórias dramáticas" - fala de individualistas como Bette Davis e Ingrid Bergman. "Sempre gostei desse tipo de histórias, e ao longo dos anos abandonámos essas narrativas. Esta foi uma oportunidade de fazer uma dessas histórias.
A verdade é mais estranha que a ficção. Havia uma certa vulnerabilidade nas mulheres da altura. [Collins] não teve hipóteses. Quando vemos as fotografias dela sentada com a criança falsa, sorrindo, pensamos: 'Como é que eles conseguiram que ela fizesse aquilo?'"
"Changeling" é o segundo filme de Eastwood - depois de "Mystic River" - a tratar do desaparecimento de uma criança e do tormento que esse acontecimento deixa no seu rasto. "Os crimes contra crianças são os mais repugnantes. Eles estariam no topo da minha lista de justificação para a pena capital", diz Eastwood, 78 anos, pai de sete filhos. "Fico sempre surpreendido pelo modo como certas pessoas podem ser insensíveis perante as vítimas desses crimes."
A partir do momento que ficou provado que o rapaz que lhe foi devolvido não era o seu filho, Collins declarou guerra ao poder. A direcção da polícia realizou um inquérito mas recusou castigar Jones. Mais tarde, no entanto, a Câmara Municipal recomendou que Jones e o chefe Davis fossem removidos dos seus postos. Depois de dois julgamentos, um juiz ordenou a Jones que pagasse a Collins 10.800 dólares, mas ele nunca o fez. Ele e Davis acabaram por voltar aos seus antigos postos na polícia de LA, e Davis voltou a ser novamente chefe de polícia em 1933. Mas o que é mais importante, a Legislatura da Califórnia aprovou uma lei que proibia a polícia de mandar pessoas para uma instituição psiquiátrica sem mandado judicial. O corpo do rapaz nunca foi encontrado. Ao longo da sua vida, Christine Collins manteve a esperança de que o filho estava vivo e continuou a procurá-lo. Northcott, conta Eastwood, atormentou-a até ao fim. Citando as memórias de Quentin Duffy, o director da prisão de San Quentin, Eastwood revela que Northcott convidou Collins e outra mãe para o visitarem na cadeia antes da sua execução em 1930. "Ele mexeu com as cabeças delas. [Northcott] levou-as a acreditar que ia pôr fim ao seu tormento, mas não. Gozou com elas. De facto, o assassino insistiu novamente que estava inocente. Foi o seu derradeiro acto sádico."
Quem teve paciencia para ler deu para ver que a historia é de tirar o folego de qualquer um.
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